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Audio - Instrumentos Musicais e Tecnologia |
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Uma enorme polêmica
existe em relação ao uso de computadores e sintetizadores para se fazer e tocar música:
algumas pessoas são extremamente radicais e se opõem ferreamente (devem ter lá suas
razões) à utilização de "bits e bytes" dentro das partituras, enquanto que
outros - incluindo muitos músicos eruditos - são simpáticos às novas idéias, e tratam
de se aproveitar das novas ferramentas, como forma de somar recursos para sua
atividade-fim, que é a música.
O objetivo do texto a seguir é, em primeiro lugar, recapitular quantas coisas aconteceram
em poucos anos de uso efetivo de eletrônica na música e, em seguida, mostrar as
incontestáveis vantagens que nós, usuários dessas máquinas maravilhosas, passamos a
ter com tudo isso, e o que podemos esperar para o futuro.
Desde o começo, os instrumentos musicais usufruíram dos recursos tecnológicos
disponíveis. Mesmo nos tempos antigos, quando a tecnologia era primitiva, confeccionar
bons instrumentos já dependia de ferramentas e materiais de alto nível. Os luthiers e
artesãos dedicados à fabricação de instrumentos musicais sempre foram considerados
profissionais especializados, altamente qualificados e, por isso, muitíssimo respeitados.
De algumas décadas para cá, assim como aconteceu em outros setores, a indústria musical
passou a se utilizar maciçamente dos recursos de alta tecnologia, mais precisamente
dispositivos eletrônicos. Essa conjugação teve várias conseqüências muito
importantes para a evolução não só dos próprios instrumentos - qualidade, preço, etc
- mas também da música como um todo (novos estilos, comportamentos, etc).
O uso da eletrônica na música começou primeiramente como forma de se amplificar sons.
Posteriormente foram se desenvolvendo novos dispositivos que possibilitavam a gravação e
a reprodução. Paralelamente - aproveitando-se a mesma tecnologia - aconteciam
experiências na geração de sons, usando-se osciladores eletrônicos. Os recursos ainda
eram muito rudimentares, mas a semente já estava lançada.
DO, RE, MI, 10010110, 10110100,
11010101...
Decorreram-se apenas algumas décadas desde o início da era eletrônica até começar a
era dos computadores. Mas a transição foi brutal, principalmente quando surgiram os
microcomputadores, e o "cérebro eletrônico" deixou de ser personagem de filme
de ficção científica e entrou nos escritórios, nas indústrias, nos lares e - por que
não? - nos estúdios, passando a ter uma importância fundamental para seus usuários. Se
você utiliza o computador no seu trabalho, então responda: poderia viver sem ele?
Provavelmente sim; da mesma forma que também poderia viver sem água encanada, sem luz
elétrica, sem televisão... mas a sua vida seria muito pior, não seria?
Pois bem, voltando ao ponto que nos interessa: no final da década de 70 a indústria
musical começou a sofrer (sofrer ou se beneficiar?) uma mudança bastante radical:
empresas pequenas, novas e desconhecidas no cenário da música, apareceram com máquinas
que realmente impressionavam. Eram elas: E-mu Systems, Sequential Circuits, Polyfusion,
New England Digital, Oberheim, Fairlight, Synergy e algumas outras. Os nomes nem de longe
sugerem algum vínculo com a música, mas por trás havia um seleto grupo de engenheiros e
técnicos com duas coisas em comum: o gosto pela música e o conhecimento da tecnologia
digital.
Algumas fábricas de sintetizadores que tinham uma boa reputação - e sucesso - no
começo dos anos 70, como a ARP e a Moog, sucumbiram frente à "nova onda" que
surgia. Em grande parte pelo fato de não terem conseguido acompanhar o passo da
evolução, ou até mesmo por não terem vislumbrado a tempo o começo da nova era, e
acabaram por amargar dias cada vez mais difíceis, até fecharem as portas definitivamente
(com a onda "retrô", muitas pessoas têm ressuscitado alguns desses
instrumentos, ultimamente).
O ponto-chave para a ascensão daquelas novas empresas foi o seu domínio sobre a
tecnologia digital. Embora (aparentemente) nada tivessem a ver com música, o conhecimento
que possuíam na área de informática era suficiente para transformar sons em processos
computacionais, e a partir daí obter resultados bastante aceitáveis. Ainda que a
tecnologia digital daquela época não fosse das melhores para os padrões atuais, o
potencial de vantagens era muito promissor. Isso encorajou outras pessoas e empresas a
entrar na "onda", assim como também sacudiu alguns fabricantes
bem-estabelecidos, como a Yamaha e a (àquela época, ainda jovem) Roland, que logo
trataram de acelerar suas pesquisas no assunto. Embora várias das fábricas pequenas
tenham fechado após alguns anos, grande parte de seu material humano foi aproveitado
pelas que sobreviveram ou pelas mais novas que vieram depois.
O resultado dessa "corrida" foi um surto fantástico de desenvolvimento de
instrumentos musicais eletrônicos - principalmente sintetizadores - que produziram alguns
resultados fabulosos. Vejamos algumas máquinas marcantes:
Esses são apenas alguns exemplos. Se
você folhear as revistas americanas de música da época, encontrará anúncios de
diversos outros instrumentos de que nunca ouviu falar, mas que tiveram seu valor na
evolução dos sintetizadores.
OS BENEFÍCIOS DIRETOS
Uma das maiores vantagens que os instrumentos digitais (ou híbridos) trouxeram para os
músicos foi a estabilidade da afinação. Os sintetizadores analógicos sofriam de um mal
intrínseco à circuitaria que usavam, que era a dificuldade de permanecer afinado frente
a variações de temperatura do ambiente. Isso era o terror dos projetistas. Para se ter
uma idéia do problema que isso representava, basta ver os catálogos originais do
Minimoog e do ARP 2600, onde o termo "estabilidade" merece destaque nas
especificações técnicas. Com os circuitos digitais, a precisão e a estabilidade
deixaram de ser um problema (alguém se preocupa com isso hoje?), uma vez que os
instrumentos passaram a usar osciladores controlados por quartzo.
À medida que foram sendo usados mais e mais circuitos digitais dentro dos sintetizadores,
e posteriormente microprocessadores, outras facilidades foram sendo incorporadas. Uma
delas foi o sistema de comunicação MIDI, que talvez tenha propiciado a maior revolução
nos processos de composição e execução de música, desde que Guido dArezzo criou
o sistema de notação em pauta, por volta do século X.
Não cabe aqui entrar em detalhes sobre MIDI, mas vale a pena destacar as vantagens que
ele trouxe: controle, controle, controle... Com o MIDI, o músico passou a poder controlar
cada vez mais instrumentos, e não só isso: passou a controlar e a manipular sua música
com rapidez e precisão. Diversos recursos surgiram como conseqüência do MIDI: softwares
musicais de todo o tipo, intercambialidade musical (General MIDI, Standard MIDI File) e
uma aproximação maior entre os fabricantes, pois usam o mesmo padrão (no setor de
samplers, por exemplo, é cada vez maior a compatibilidade entre equipamentos, quanto à
utilização de amostras). O MIDI propiciou até mesmo o surgimento de
"instrumentistas do mouse", compositores antes incapazes de fazer música usando
as ferramentas convencionais (instrumentos acústicos) que passaram a extravasar sua
sensibilidade musical através de softwares no computador, controlando sintetizadores via
MIDI.
O uso de microprocessadores dentro dos instrumentos também viabilizou a implementação
de sintetizadores polifônicos, onde as vozes (polifonia) são alocadas eficientemente
para que as diversas notas possam ser executadas (outro enorme problema nos sintetizadores
analógicos). E a capacidade polifônica vem crescendo a cada ano (64 vozes é o padrão
atual). Adicione-se a isso a capacidade de detectar a intensidade com que uma nota é
executada pelo músico ("key velocity"), e então poder aplicá-la de diferentes
formas no som produzido (além de transmitir essa informação para outros instrumentos,
via MIDI).
À medida que chips microprocessadores mais avançados foram surgindo, mais funções
foram sendo incluídas nos sintetizadores, ampliando sua capacidade ainda mais. O
processamento digital de sinais (DSP) permitiu não só aprimorar a qualidade sonora dos
timbres, como também incorporar ao instrumento módulos de efeitos (reverb, chorus, etc).
Surgiram então os sintetizadores multitimbrais, capazes de executar vários timbres
simultâneos, e multiplicando a eficiência do equipamento, que se tornava capaz de
acumular as funções de baixo, bateria, piano, base, pad, solo, etc, etc. Tudo muito bem
gerenciado pelo microprocessador. Depois vieram as workstations (Korg M1 e similares),
instrumentos que integram sintetizador (teclado e gerador de timbres multitimbral),
processador de efeitos e seqüenciador MIDI.
Nessa altura dos acontecimentos, a tecnologia digital de 16 bits se estabeleceu e foi
atingido um nível de qualidade sonora extremamente alto. Os timbres dos sintetizadores
passaram a ter uma perfeição e uma clareza tão grandes, que até mesmo tecladistas
acústicos "de carteirinha" se deixaram vencer pela eletrônica, pois apesar de
ainda ter limitações sonoras (principalmente em termos de expressividade) é muito
melhor usar um piano digital, quando a outra alternativa é um piano acústico com
problemas afinação, captado por microfones ruins.
A evolução da tecnologia de memórias digitais vem pondo no mercado chips com capacidade
de armazenamento cada vez maior. Isso permitiu aos fabricantes colocarem mais e mais
timbres dentro dos sintetizadores, o que passou a ser um enorme valor agregado aos
instrumentos. Só para citar um exemplo verdadeiro: o Roland JV-1080 vem de fábrica com
640 timbres (sem contar as baterias/percussões), e você pode adicionar um card e mais
quatro placas de expansão, o que pode chegar a um total de mais de 1.200 timbres em um
único equipamento! (haja música para usar isso tudo). No passado recente, tecladistas
como Rick Wakeman precisavam levar uma dezena de teclados para o palco, para que pudessem
ter disponibilidade imediata de diferentes timbres. Hoje, basta pressionar um botão.
Esse aumento na capacidade de armazenamento trouxe também um outro grande benefício
direto para o músico, que não precisa mais perder tempo programando o sintetizador. Com
uma quantidade tão grande de timbres, dificilmente será necessário programar um novo,
já que na memória do sintetizador já terá praticamente tudo o que deseja. Se não
tiver, o músico pode adquirir outros timbres de empresas especializadas, vendidos em
disquete, card, CD-ROM ou via Internet. Outra vantagem conseqüente da capacidade de
memória é que o instrumento, por conter uma enorme variedade de timbres, torna-se cada
vez mais versátil, e podendo ser usado em qualquer tipo de música.
BENEFÍCIOS INDIRETOS
Além de tudo o que já falamos até agora, existem ainda outros aspectos relevantes. À
medida que os computadores foram se tornando objetos de uso quase obrigatório no
dia-a-dia das pessoas, seus componentes foram se tornando mais padronizados e mais comuns.
Dessa forma, com os instrumentos musicais se "computadorizando" cada vez mais,
os fabricantes do setor musical foram procurando aproveitar não só a tecnologia
disponível, mas também os próprios componentes comerciais e dispositivos já existentes
no mercado.
Vejamos alguns exemplos desse aproveitamento positivo do que já existe no mercado de
informática: praticamente todo sintetizador que possui unidade (drive) de disquete,
utiliza disquetes de 3.5" e formatação compatível com o sistema operacional MS-DOS
(o dos computadores PC); diversos instrumentos podem ter sua memória expandida, e para
isso utilizam plaquetas de memória SIMM, também usados em "motherboards" de
computadores comuns; alguns instrumentos utilizam cards do padrão PCMCIA, usados em
computadores portáteis (notebooks); vários samplers e equipamentos de gravação de
áudio podem acoplar unidades de armazenamento do tipo SCSI (discos rígidos, unidades de
CD-ROM, unidades magneto-ópticas), também de fácil obtenção no mercado.
Uma conseqüência imediata desse aproveitamento industrial é não só a redução de
custos de projeto e de fabricação (o que faz o instrumento chegar ao músico com um
preço mais baixo), mas também a maior facilidade de manutenção, pois os componentes
deixam de ser exclusivos e proprietários, podendo ser encontrados com mais facilidade.
Embora não seja uma prática comum da indústria de instrumentos, a tecnologia digital
permite que um equipamento seja "atualizado", pela simples substituição do seu
software de controle. Em alguns casos, o usuário pode adquirir (às vezes até recebe
gratuitamente) do fabricante uma nova versão do software de controle, substituindo o chip
interno de memória EPROM ou o disquete de partida do equipamento. A indústria de
softwares musicais adota essa política desde muitos anos, o que aliás é uma forma muito
inteligente de manter o cliente.
Mas não são só os sintetizadores que estão se aproximando dos computadores, pois o
inverso também já ocorre. Com os computadores "multimídia", pode-se dispor de
recursos de geração de som num computador comum. É bem verdade que o sintetizador OPL-3
que existe nas "soundblasters" da vida não se compara de longe a um instrumento
"de verdade", mas é só uma questão de tempo. Já existem placas de som para
computadores que vêm com chips sintetizadores de sonoridade bastante razoável, a um
preço demasiadamente baixo, se comparado com um instrumento musical. Alguns desses
sintetizadores permitem ao usuário carregar novos timbres; existem até placas de som que
são verdadeiros samplers (SampleCell).
Por outro lado, à medida que o poder de processamento dos computadores aumenta, os
softwares podem fazer mais coisas. E assim começam a surgir os "software
synthesizers", como o CyberSound VS, da InVision. Isso poderá tornar os
sintetizadores mais computadores, e vice-versa. De preferência com as vantagens de cada
um, é claro. Imagine então um músico falando com outro: "Já fiz upgrade para a
nova versão 2.0 do Korg X600dx-4, pagando uma taxa de $100." E o outro responde:
"É, eu já tenho também. Agora a polifonia é de 512 vozes, e ele também já pode
usar os timbres do Emulator 200."
PAGANDO MENOS POR MAIS
Não poderíamos deixar de falar do aspecto econômico associado à evolução dos
instrumentos musicais eletrônicos. É bastante interessante mostrarmos alguns fatos, sob
o ponto de vista de custo/benefício.
Em 1980, o Minimoog custava US$ 1995. Era um instrumento monofônico, não memorizava
timbres (tinham que ser programados por botões no painel), seu teclado não tinha
sensibilidade, e ainda sofria dos problemas de estabilidade da afinação. Os sons que
produzia - embora sensacionais - eram puramente sintéticos, isto é, era impossível
tocar um som parecido com piano acústico, com sax, etc.
Em 1996, é possível adquirir por pouco mais de US$ 1000 um sintetizador multitimbral (16
partes), polifônico (64 vozes), com um teclado mais longo e com sensibilidade a key
velocity e aftertouch, com mais de 640 timbres na memória (vários sintéticos, vários
de instrumentos acústicos), possibilidade de expansão, processador de efeitos embutido,
MIDI, etc, etc.
Isso só foi possível graças à redução de custos da tecnologia digital, que passou a
ser a matéria-prima fundamental dos instrumentos modernos.
Só a título de comparação: quanto custava um piano acústico no começo do século? É
bem possível que esse mesmo tipo de piano custe mais caro hoje, apesar de já se terem
passado quase cem anos. Isso porque a matéria-prima (madeira) ficou mais escassa e sua
exploração ecologicamente proibitiva (teclas de marfim, nem pensar).
O QUE NOS ESPERA NO FUTURO
Uma vez que os instrumentos musicais modernos estão intimamente ligados à tecnologia dos
computadores, não é tão difícil imaginar o que poderá vir nos próximos anos. Basta
acompanhar as previsões dos especialistas da área de informática, e transportar para o
nosso meio aquilo que podemos aplicar.
O aumento impressionante da capacidade de processamento dos chips será um fator cada vez
mais preponderante daqui para a frente, o que ajudará aos sintetizadores terem um aumento
crescente de recursos. A maioria dos instrumentos provavelmente terá uma polifonia
superior a uma centena de vozes nos próximos três anos. Da mesma forma, a capacidade
multitimbral também será ampliada. Os recursos de síntese serão aprimorados ainda
mais, e surgirão novos processos, como a adoção de técnicas de modelagem física para
melhor controlabilidade do som. Com o barateamento das memórias digitais e outras mídias
de armazenamento, certamente os sintetizadores terão uma capacidade ainda maior de
memorização de timbres. O disquete será substituído por discos ópticos.
Os instrumentos musicais terão cada vez mais afinidade com os computadores,
compartilhando cada vez mais componentes e dispositivos do que hoje. Por que não ter um
barramento PCI dentro do sintetizador, para inserir uma placa de vídeo ou uma
controladora SCSI comum do mercado? Isso dará maior expansibilidade ao equipamento. Além
disso, a padronização cada vez maior poderá propiciar a intercambialidade entre
equipamentos de fabricantes diferentes, até porque cada vez mais vêm sendo usados os
mesmos dispositivos disponíveis no mercado.
Apesar dessas especulações, não tenho a menor intenção de profetizar qualquer coisa,
mas apenas raciocinar em cima de fatos presentes e tendências mais evidentes. Mas uma
coisa eu tenho como certa: qualquer que seja a velocidade dos acontecimentos, o usuário
sempre terá vantagens.